Palestra com Maurício Azêdo (ABI) – 03/09/09

*Fotos por Reginaldo Pimenta

Para que os detalhes em torno do fim da exigência do diploma para jornalistas fossem esclarecidos, a Universidade Estácio de Sá do Campus Rebouças, no Rio Comprido, convidou o presidente da Associação Brasileira da Imprensa (ABI), Maurício Azêdo. O convite também foi feito à Suzana Blass, que é presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio, porém, por motivos de saúde não pôde comparecer. Na mesa de palestra, os professores de jornalismo Ricardo França, Luís Laranjo, Jorge Maroun e Emília Ferraz compartilham a opinião acerca do tema.

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Da esq. para dir.: Ricardo França, Maurício Azêdo, Luís Laranjo, Jorge Maroun e Emília Ferraz

Sem ir diretamente ao tema principal, Maurício Azêdo optou subir um degrau de cada vez, realizando primeiramente uma crítica ao meio de contratação atual de certos meios. “Antes bastava uma indicação individual ou entregar o currículo na redação”, diz. “Agora existem cursos preparatórios para realizar as etapas preliminares dos processos seletivos”, conclui o presidente. É verdade – e bem notável – o quanto a contratação em grandes empresas, agora, soa como mito; sempre impenetráveis e contactáveis apenas via “Fale Conosco” de e-mail, abandonando a questão presencial e dando lugar à uma relação restrita e “fria” com um candidato.

Maurício ainda ressalta as características que um jornalista necessita ter e que, com a perda do diploma, muitos precisarão desenvolver, se forem de outras áreas, como: a formulação da pauta, a técnica de reportagem, a técnica de entrevista e a ética jornalística. De maneira descontraída e com certo sarcasmo, o presidente da ABI critica o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, que contribuiu para o fim do diploma e comparou a profissão do jornalista com a de um chefe de cozinha. “Se pedíssemos ao ministro do STF e um calouro do curso universitário de jornalismo para realizar a cobertura de um evento em trinta linhas, o jovem calouro o faria melhor, pela base que adquiriu na universidade”, diz Maurício Azêdo

gilmarmendes_maurícioazêdoOpiniões contrárias: Gilmar Mendes, ministro do STF (esq.), e Maurício Azêdo, presidente da ABI (dir.)

A palestra foi ganhando a participação dos professores da Estácio presentes na mesa, a medida em que dúvidas e assuntos instigavam um debate. Jorge Maroun e Emília Ferraz confirmavam o discurso de Maurício Azêdo, citando exemplos da carreira profissional e desenvolvendo a palestra, que foi tomando forma de “aula”, o que deixou muito mais interessante aquilo que se presenciava. Porém, foi o professor Ricardo França que engatilhou um ponto importante, quando compartilhava as experiências na construção do jornal de bairro que criou, quando jovem. “Minha mãe dava dinheiro para eu fazer o jornal e daí, assim que os vendia, devolvia tudo para ela”, diz ele. “Assim que eu soube do fim do diploma para jornalistas, percebi que isso nos faz imaginar um cenário; o cenário do mercado. Por exemplo, outro dia comprei um livro de jornalismo escrito por uma agrônoma e vi uma psicóloga fazendo a cobertura de um evento. Esse é um exemplo que o mercado nos dá, de que profissionais de outras áreas estão fazendo nosso papel. Mas eu acho que o que os estudantes estão fazendo aqui (no sistema universitário) é muito importante, vivendo o que a gente vive, e isso ninguém vai tirar da gente”, diz o professor Ricardo França.

São visíveis os “sintomas” de que indivíduos de outras profissões estão se aproximando do lugar que o jornalista ocupa. Assim como blogueiros. Pode até não ser intencional, mas é um fato que contribui para que estes sejam vistos como “jornalistas web writers” (ou seja, que escrevem para a web), o que é injusto, tendo em vista os 4 anos de aprendizado que um estudante universitário tem. Da mesma maneira que qualquer curso exige os anos de estudo, deve-se cumprí-lo para que possa ser exercido e fazer jus ao nome da profissão.

11Os professores aplaudem o fim do discurso de Maurício Azêdo, concluindo a palestra

Para fazer o encerramento com chave de ouro, o presidente da ABI cita as palavras do intelectual, teórico e jornalista Edmundo Moniz a Carlos Prestes, político comunista brasileiro, quando foi feita uma homenagem ao segundo, em 1974: “O importante não é a idade cronológica das pessoas, mas sim, a vitalidade e a juventude das suas idéias.” “Não se deve perder a esperança; a luta continua”, afirma Maurício Azêdo. “Dependendo do nosso grau de engajamento, seremos vitoriosos.”

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A medida em que os palestrantes esvaziavam a mesa, senti a necessidade de fazer breves perguntas ao presidente da ABI. Perguntas que tocassem levemente em pontos importantes.

Pablo: Quais são suas expectativas quanto ao jornalismo, agora, sem diploma?

Maurício: Eu acho que o aspecto do diploma é secundário nessa questão. O diploma é apenas a expressão gráfica daquilo que é mais importante, que é a formação do estudante nas escolas de comunicação social. E esse é o aspecto relevante. A inexistência da cobrança dessa formação em nível superior pode acarretar graves danos à qualidade técnica e cultural do jornalismo, que se pratica entre nós.

P: Qual é a sua opinião sobre jornalistas blogueiros?

M: Eu acompanho a uma certa distância essa questão, mas não atribuo ao jornalista blogueiro, a importância que se deve atribuir. Porque o jornalismo que pode ter repercussão no meio social é aquele feito pelos veículos eletrônicos como rádio e tv e pelo jornal impresso. O jornalista blogueiro é uma curtição de quem o pratica, mas sem a repercussão social que o jornalismo precisa ter para ser uma atividade socialmente importante.

P: Entendo o ponto de vista, mas existem blogueiros que estão cada vez mais polêmicos, sendo entrevistados em jornais ou ganhando atenção na TV.

M: É, mas não são jornalistas. Não devem ser discriminados. Devem ser vistos com respeito, mas sem se atribuir ao jornalistas blogueiros qulaquer importância do ponto de vista daquilo que é a destinação dos jornalistas, que é influir no meio social visando a melhoria na qualidade de vida das pessoas.

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Não sei quanto a opinião de quem está lendo isso, mas creio que o jornalismo em blogs já deixou de ser uma curtição. Acredito que já é um sinal evidente na mudança profissional de comunicadores – ou até de outras áreas. Como exemplo, percebemos a cobertura online do prêmio Multishow, feita por blogueiros, até com mensagens instantâneas no Twitter. Existem também, empresas que pedem blogs e perfil de Orkut, justamente na intenção de ter uma prévia  do possível futuro funcionário. Não entenda mal, ou veja isso de maneira apocalíptica, mas dê, de fato, atenção a esses sinais.

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Reportagem – “A Cultura do Outro Lado da Rua”

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Os moradores do bairro do Maracanã estão acostumados com o que o Estádio Mário Filho representa, e se orgulham disso. Porém, na Rua Mata Machado, próxima ao portão 13, encontra-se as ruínas do antigo Museu do Índio. O prédio abrigou o museu até 1978, quando foi transferido para Botafogo, na Zona Sul do Rio de Janeiro. Atualmente, o espaço recebe índios que vêm para a metrópole para tentar ocupar um espaço na sociedade urbana.

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Danilo Carajá, de 23 anos, é um dos poucos índios dali que conseguiram ingressar em uma faculdade. Ele estudou na Universidade Veiga de Almeida durante um semestre, realizando o curso de Contabilidade, na intenção de obter algum conhecimento que o ajudasse a revitalizar o prédio. “O plano é tornar o lugar a primeira universidade indígena do país”, conta o jovem. Danilo vive na ocupação há três anos e faz questão de propagar o interesse pela cultura indígena: os índios dali vão à colégios, eventos e dão palestras. Apesar de todo o esforço para que o lugar – assim como a cultura indígena – seja valorizado, Danilo e os outros índios vivem do dinheiro que arrecadam pela venda de brincos e colares na praia.

O índio Kamayurá Pataxó, também de 23 anos, mora na ocupação há apenas 1 ano e possui uma posição bem concreta quando se trata sobre a inserção do índio na sociedade urbana. “Nós queremos o direito que a Constituição diz que nós temos”, reivindica o índio, “porque o Estado diz para a gente que quer construir um estacionamento aqui, para a Copa de 2014, gerar capital, renda para o país”, completa. “O Estado fala que a nossa cultura não acrescenta capital, mas a verdade é que a cultura indígena iria acrescentar muita coisa ao país inteiro. Aí o universitário se forma, vira antropólogo, ‘doutor’, educador, e não sabe nada sobre as raízes do país onde vive.”

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O prédio onde vive Danilo, Kamayurá, e os outros índios é também alvo de vandalismo. “De vez em quando expulsamos algum drogado, ladrão, ou até prostituta, que invade que nossa casa”, conta Danilo. “Uma vez fui socorrer uma mulher que havia sido assaltada e me confundiram com o criminoso. Na delegacia, falaram que eu era traficante porque eu tava pintado e queriam saber de que facção eu era. Os índios daqui de casa foram lá na frente da delegacia protestar e tudo correu bem depois”, diz.

Quando se pensa em um índio, logo se pensa em um homem moreno, de cabelo liso, em poucos trajes, batendo com a mão na boca. Na verdade, eles querem mostrar que são exatamente como nós. “É um desafio para a gente, ocupar um espaço na sociedade. Mas não é porque a gente vai entrar numa universidade ou mexer na internet, que vamos deixar de ser índio. A gente quer mostrar que somos cidadãos também”, diz Kamayurá.

do outro lado da rua

O que mais chama atenção é o fato de que a Rua Mata Machado divide o prédio do antigo Museu do Índio e o estádio Mário Filho. Na pista recreativa do estádio, passam indivíduos de bicicleta, fazendo caminhada, ou praticando qualquer outro esporte, sem nem mesmo perceber que, próximo àquele lugar, reside uma cultura diferente daquela que estão acostumados. São duas realidades totalmente distintas, separadas por uma rua e nascidas de uma única cultura. A cultura indígena está tão próxima do quanto imaginamos; está do outro lado da rua.